domingo, 22 de junho de 2008

Vida de escritor

Aconteceu no saguão do aeroporto de Congonhas. Eu estava sentado num café esperando um representante da minha editora, que me levaria para o hotel. Minha visita a São Paulo era coisa rápida, apenas dois dias. Eu estava na cidade para o lançamento do meu último livro.

O vôo atrasou por causa do mau tempo, o Leonel, motorista da editora, atrasou mais ainda, por causa do trânsito. Vir a São Paulo é sempre um grande desafio para mim. O trãnsito, a correria, a garoa, pessoas apressadas, parece que todo mundo, o tempo todo, está atrasado para não sei o quê. É por isso que não gosto de sair da Bahia, aquilo sim é que é lugar para se viver. Agradeço a Deus, todos os dias, por ter nascido baiano. Infelizmente, tornar-se um escritor lido em todo país, tem das suas chateações, vir a São Paulo para noite de autógrafos é uma delas.

Bem, voltando ao café, percebi, olhando para o tamanho da chuva que caía lá fora, que o Leonel demoraria a chegar, sendo assim, sentei-me numa cafeteria, pedi um suco de caju e abri meu lap top. Que coisa mais chique, eu parecia um desses executivos cariocas ou paulistas, a não ser pelas minhas roupas, as quais, denunciavam minha naturalidade: calça branca bem larga, camisa de linho amarelinha bem clarinha e sandálias bem folgadas.

Meus olhos estavam fixos na tela do computador; estiquei a mão, peguei o copo e experimentei o suco. De repente, ouvi uma voz masculina chamar meu nome. Olhei por cima da tela do computador e pude observar um rapaz, de mais ou menos quarenta anos, esse sim, vestido como um executivo paulista: terno preto, camisa branca, gravata rosa.

O sujeito me cumprimentou e confirmou minha identidade. A princípio pensei: estou mesmo virando celebridade. Sem pedir licença, puxou a cadeira e sentou na minha frente. Estranhei a falta de delicadeza do camarada, mas eu estava em terra estranha, sendo asssim, abaixei a tela do computador e olhei fixamente para ele, afinal de contas, não me custava nada dar um pouco da minha atenção para um leitor, não é mesmo? Porém, quando ele começou a falar, percebi que não se tratava de um leitor, mas sim de um crítico, e um dos mais ferrenhos.

O sujeito parecia bastante alterado. Começou a criticar a temática da minha obra. Esqueci de dizer que escrevo romances policiais; depois, reclamou da periodicidade com que lanço livros e por fim, queixou-se da preferência que tenho por finais inusitados.

Confesso que, a princípio, não entendi nada. Como o cara podia conhecer tanto dos meus livros e ao mesmo tempo odiá-los? Penso que se alguém começar a ler um livro e não se identificar com o jogo proposto pelo autor, é melhor deixar a leitura de lado e partir para outra. Ninguém é obrigado a ler um livro até o final. Mas o rapaz em questão conhecia, e bem, a maior parte dos meus livros. Sabia a ordem das publicações, o nome que uso para minhas protagonistas - todas elas chamam-se Rebecca, adoro esse nome, o título do meu último livro publicado e do livro que publicaria no dia seguinte.

No desenrolar daquele estranho monólogo comecei a entender a fúria do paulista. Tratava-se de um marido furioso que esbravejava por causa do vício da sua jovem esposa pelos meus livros. Dizia ele que sempre há um de meus romances no criado-mudo ao lado de sua cama e que ela jamais dorme ou faz qualquer outra coisa, se é que vocês me entendem, antes de ler pelo menos quinze páginas do livro. Além disso, para ele o pior da história era ter que ouvir os comentários dela depois da leitura. Tal situação estava-se tornando insuportável para o rapaz.

Nunca imaginei passar por uma situação dessas. Sempre que escrevo penso nos meus leitores, mas nunca parei para pensar nas pessoas que os cercam ou convivem com eles.

Depois de entender a confusão, tentei abrir um diálogo com o executivo, mas foi inútil, ele não parava de falar e gesticular; de repente, parei de escutar o discurso. Comecei e imaginar minha próxima Rebecca. Pensei numa mulher jovem, viciada em romances policiais, casada com um sujeito mau humorado, que não dá atenção para o que ela gosta de fazer... Meu Deus! Eu estava sentado ali, na frente daquele sujeito irritado, que não parava de falar e o meu próximo livro começava a se desenhar na minha cabeça. Naquele momento eu só pensava em abrir novamente meu computador e começar a escrever.

Passados alguns minutos ele parou de falar e me olhou com uma cara de quem diz: "E aí, o que você tem a dizer sobre o drama que ando vivendo?". Naquele instante talvez eu devesse ter dito palavras de desculpas por ser um escritor apreciado pela esposa dele, mas não consegui deixar de ser sarcástico. Peguei meu computador, coloquei-o na minha bolsa, levantei, balancei a cabeça e disse ao camarada:

-Diga à sua esposa que ela será a inspiração para a minha próxima Rebecca. Quanto a você amigo, saiba que não consigo pensar numa história com menos de 385 páginas. A história será bem longa.



quinta-feira, 5 de junho de 2008

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A hora da estrela

Iniciei a leitura do livro sem nenhum conhecimento prévio a respeito do texto. Cheguei a pensar que se tratava de uma espécie de autobiografia da Clarice Lispector. O sentimento que eu tinha a respeito de tal leitura era muito bom, afinal de contas, era literatura. No meu texto anterior reclamei da falta de tempo de ler livros agradáveis, então, essa era minha chance. Mas quem disse que toda literatura é fácil e agradável de ser lida? Algumas vezes somos surpreendidos por textos que incomodam e que mesmo depois de termos lido páginas e página ainda não conseguimos dizer se o amamos ou o odiamos.
Logo percebi que a história da nordestina era um pano de fundo para uma outra história, a história de um autor imerso no processo de construção de um personagem.
No decorrer do texto, esse autor coloca alguns questionamentos e afirmações muito interessantes: "Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo." (p.18). Durante nossa oficina, conversamos muito a respeito desse tema, ou seja, o quanto é importante para alguém que escreve conhecer, e conhecer cada vez melhor, sua língua. Creio que o treino que nos foi proposto, de escrever aqui no Blog, nos ajuda nesse sentido.
"Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas."(p.19) Durante o semestre nos deparamos muitas vezes com essa dificuldade. Mesmo depois de adquirir, como citei anteriormente, o "espírito da língua", ainda assim, tirar as idéias da cabeça e colocá-las no papel, de forma bonita e clara, é muito difícil.
Terminada a leitura, penso que esse foi mais um momento de reflexão sobre o proceso de escrita de cada um. A respeito de tal processo, um aspecto que ainda me intriga é o que, no livro "Negociando com os mortos", Magaret Atwood chama de "duplos". Ela questiona a identidade de quem escreve. Afirma que quem escreve não é aquele que vai ao supermercado, faz compras, cuida das plantas e cria filhos, mas sim um duplo dessa pessoa.
Confesso que para mim esse tipo de afirmação, que Clarice também deixou transparecer através história do autor de Macabéa, ainda é intrigante.