quinta-feira, 20 de março de 2008

Memórias de leitura

Minhas memórias de leitura são semelhantes às de escrita. Na escola, lia o que me era mandado e com um objetivo muito claro, fazer prova. Quem, na faixa dos quarenta anos ou mais, não se lembra de tal atividade: "Prova do livro"? Os livros que li foram os clássicos: "Senhora", "Memórias Póstumas de Braz Cubas", "O Guarani", enfim, todos os títulos pedidos no vestibular. Não lembro de ter-me apaixonado por nenhum deles.


Depois de muito tempo, já no curso de graduação, uma professora muito querida, fez uma proposta que, para mim, foi quase indecente, mas que me tirou do lugar de aluna que não gostava de ler. A proposta consistia em escolher um livro para ler, qualquer um, a única exigência era que a leitura fosse prazerosa. Nesse momento, percebi que não era capaz de escolher sozinha um livro para ler. Faltava repertório. Quais livros eu conhecia? O que eu apreciava? Romances? Contos? Eu andava por entre as prateleiras da biblioteca, me arriscava a pegar um livro nas mãos, olhava para a capa e não conseguia sentir nada, a não ser a angústia de não saber como escolher.


Durante uma conversa com uma das minhas colegas de turma, a Laura, ela acabou indicando-me um livro de Guimarães Rosa chamado "Miguilim". Sem alternativa, resolvi acatar a sugestão.


As primeiras páginas foram áridas. A linguagem de Guimarães Rosa é densa e, combinada com a minha falta de experiência leitora, se tornou, à primeira vista, quase impossível de se compreender. O livro conta a história de Miguilim, um menino que mora com sua famíla num lugarejo do sertão chamado Mutum. No decorrer da narrativa ele passa por diversas situações, algumas engraçadas, outras muito tristes, e através delas descobre as coisas do mundo e, para ele, descobrir o mundo significa perder a ingenuidade.


No final do livro, com a ajuda de seu tio, Miguilim descobre que é míope e pelas mãos de um médico que visita sua família ele coloca óculos.
"Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas.
Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.


Miguilim olhou e eu também. Com os óculos ele pôde redescobrir o Mutum, olhar as coisas de outra maneira e eu pude descobrir a leitura.


Comecei a enxergar a leitura como uma experiência maravilhosa. Num determinado momento, aquela linguagem que parecia tão árida, passou a ter ritmo e a soar como música. No decorrer da leitura ri, chorei, fiquei com raiva, tive pena. Ao perceber o tanto de sentimentos que esse livro despertou em mim, compreendi que eu gosto de ler sim, mas gosto de ler textos que despertam alguns desses sentimentos que acabei de mencionar. Graças a Miguilim me descobri como leitora e pude vivenciar outras experiências muito agradáveis com outros textos.


Hoje, caso alguém me pergunte sobre leituras prazerosas, consigo descrever algumas como: "Enterro Celestial". "Eu, Malika Oufkir Prisioneira do Rei", "Castelo de vidro" e pasmem, posso até afirmar que tenho preferência pelas auto-biografias.


Sou muito grata à Miguilim, nunca esquecerei as páginas de sua história. Ela está muito bem guardada em minha memória e em meu coração.










quinta-feira, 13 de março de 2008

Graciliano Ramos

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam primeiro com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na lage ou na pedra lima e dão mais uma torcida e mais outra. Torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Fonte: www.graciliano.com.br, 17 de maio de 2005.


Ao ler esse pequeno texto de Graciliano Ramos pude relacioná-lo com meu processo de escrita. O texto nunca vem pronto na minha cabeça. As idéias surgem, coloco-as no papel e isso se transforma num primeiro texto, ou melhor, num rascunho. Depois leio, mudo algumas palavras, às vezes mudo até algumas idéias, torno a reler e, antes de considerá-lo pronto, peço para que outra pessoa leia também. Na maioria das vezes, meu marido é quem faz o papel de revisor dos meus textos. Depois de quatro anos no Ise, posso dizer que ele se está formando professor junto comigo. Só depois de percorrer todo esse caminho é que considero o texto pronto.


Para que tudo isso ocorra é preciso que haja o movimento inicial de tirar as primeiras palavras da cabeça e colocá-las no papel, ou na tela do computador. Penso que, quando começamos a escrever sistematicamente, este é o maior desafio. Não é fácil começar a escrever quando não temos o hábito de fazê-lo; muitas vezes ficamos paralizados. Mas não existe outra maneira de treinar a escrita, senão nos despindo do medo, da vergonha, da angústia e da ansiedade e nos aventurarmos na arte de transformar pensamentos em palavras, depois em frases, em parágrafos, até se tornarem um texto, como por exemplo, esse que acabei de escrever.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Minhas memórias de escrita

Depois que terminei o Magistério, em 1994, parei de escrever. Pegava caneta e papel somente para fazer lista de supermercado e eventuais bilhetes para as professoras das minhas filhas. Escrever listas, tudo bem, porém, escrever um bilhete já não era uma tarefa tão fácil. Eu precisava pensar bastante nas palavras; lia, relia o que havia escrito e muitas vezes percebia que o que eu queria comunicar não estava claro. Fazia vários rascunhos até chegar na melhor forma.


Ao chegar aqui no Ise, em 2004, percebi que havia um grande abismo entre eu e a escrita. Eu tinha medo de escrever, ficava horas olhando para a folha em branco sem saber como começar, por isso, começava sempre pelo cabeçalho, ao menos assim, a folha já não era algo totalmente vazio.



Outra estratégia que usava era copiar textos de outros autores e, a partir deles, iniciava o meu. Era uma tarefa árdua, pois meu nível de exigência é bastante alto; sendo assim, como quando escrevia bilhetes para as professoras das minhas filhas, eu fazia vários rascunhos até chegar a um texto bom para ser entregue.



Hoje, pensando nesse processo todo, vejo que minha dificuldade era fruto da falta de treino; fiquei muito tempo sem exercitar a escrita.