Minhas memórias de leitura são semelhantes às de escrita. Na escola, lia o que me era mandado e com um objetivo muito claro, fazer prova. Quem, na faixa dos quarenta anos ou mais, não se lembra de tal atividade: "Prova do livro"? Os livros que li foram os clássicos: "Senhora", "Memórias Póstumas de Braz Cubas", "O Guarani", enfim, todos os títulos pedidos no vestibular. Não lembro de ter-me apaixonado por nenhum deles.
Depois de muito tempo, já no curso de graduação, uma professora muito querida, fez uma proposta que, para mim, foi quase indecente, mas que me tirou do lugar de aluna que não gostava de ler. A proposta consistia em escolher um livro para ler, qualquer um, a única exigência era que a leitura fosse prazerosa. Nesse momento, percebi que não era capaz de escolher sozinha um livro para ler. Faltava repertório. Quais livros eu conhecia? O que eu apreciava? Romances? Contos? Eu andava por entre as prateleiras da biblioteca, me arriscava a pegar um livro nas mãos, olhava para a capa e não conseguia sentir nada, a não ser a angústia de não saber como escolher.
Durante uma conversa com uma das minhas colegas de turma, a Laura, ela acabou indicando-me um livro de Guimarães Rosa chamado "Miguilim". Sem alternativa, resolvi acatar a sugestão.
As primeiras páginas foram áridas. A linguagem de Guimarães Rosa é densa e, combinada com a minha falta de experiência leitora, se tornou, à primeira vista, quase impossível de se compreender. O livro conta a história de Miguilim, um menino que mora com sua famíla num lugarejo do sertão chamado Mutum. No decorrer da narrativa ele passa por diversas situações, algumas engraçadas, outras muito tristes, e através delas descobre as coisas do mundo e, para ele, descobrir o mundo significa perder a ingenuidade.
No final do livro, com a ajuda de seu tio, Miguilim descobre que é míope e pelas mãos de um médico que visita sua família ele coloca óculos.
"Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas.
Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.
Miguilim olhou e eu também. Com os óculos ele pôde redescobrir o Mutum, olhar as coisas de outra maneira e eu pude descobrir a leitura.
Comecei a enxergar a leitura como uma experiência maravilhosa. Num determinado momento, aquela linguagem que parecia tão árida, passou a ter ritmo e a soar como música. No decorrer da leitura ri, chorei, fiquei com raiva, tive pena. Ao perceber o tanto de sentimentos que esse livro despertou em mim, compreendi que eu gosto de ler sim, mas gosto de ler textos que despertam alguns desses sentimentos que acabei de mencionar. Graças a Miguilim me descobri como leitora e pude vivenciar outras experiências muito agradáveis com outros textos.
Hoje, caso alguém me pergunte sobre leituras prazerosas, consigo descrever algumas como: "Enterro Celestial". "Eu, Malika Oufkir Prisioneira do Rei", "Castelo de vidro" e pasmem, posso até afirmar que tenho preferência pelas auto-biografias.
Sou muito grata à Miguilim, nunca esquecerei as páginas de sua história. Ela está muito bem guardada em minha memória e em meu coração.